sábado, 1 de setembro de 2007

Histórias de embalar


De voz forte e sentida
Ouvia-se bem no fundo
Lá na feira colorida
Homem forte e sizudo
Queria falar de maravilhas passadas
Contos ilusórios de perdição
Histórias de amor trágico
Aquelas que nos tocam no coração
Muita gente reunia
Hábil homem orador
Miríade de pessoas e alegria
Prontos para mais ardor
Na jaula rugia a fera
Na corda dançava a saltatriz
Espectáculo desta era
Pois toda a gente o diz
Pelo começo se introduz
Este que na noite profunda se encontra
E a isto o cenário se reduz
Porque pouco mais importa
Conta a lenda há já muito
Que Belo e Grotesca se amaram
Trágico amor funesto
Aquele a que se destinaram
Jamais se deviam ter encontrado
Par estranho junto
Mas de incógnitos esquemas o Fado
Faz decerto o seu conjunto
De longos anos foi a paixão
Que muitos quiseram separar
Ele por ser Belo ao ponto de ilusão
Ela Grotesca, algo de abominar
Mas doce a ironia
De nada possuir grotescamente
Era apenas mais uma mulher nascida
De profunda fealdade ausente
Ele por seu oposto
De comum beleza e fragância
Irradiava qualquer rosto
Devido a pura ignorância
E assim ambos sofreram
Acusações, injúrias e mentiras
Estas que não os demoveram
De fortes mentalidades e filosofias
Nesta história contada
Suposto herói exaltado
Morre de pura velhice mirrada
Com a morte na cama deitado
E ela fica de nome por defender
O ideal e personalidade
Que naquele tempo jamais iriam compreender
Sem enorme ridicularidade
E a moral aqui fica
Por o proíbido se ter amado
O que a sociedade tremendamente implica
Por não querer nada de errado
E este amor trágico chegou ao fim
Sem ninguém o compreender
Triste alma derramada assim
Que acabou por morrer

9 comentários:

Expresso Oriente disse...

Gostei também bastante deste, algo diferente daquilo a que nos tens habituado pois este não tem nada de simples nem sequer na aparência. Gostei de teres ido buscar a velha (e que pena ter-se perdido) tradição dos contadores de história e gostei da história de amor contada pois vai, também esta, além do habitual. Depois acrescentaste também a lição de que as aparências iludem, do julgamento pela aparência... Enfim, bastante complexo em forma e conteúdo. Sim, senhora. Estás de parabéns. E que pena a tradição dos contadores de história ter morrido... seria delicioso que contassem o teu texto.

Leonor disse...

A história de amor que contei pode o ser e ao mesmo tempo não. Tal como a moral do poema pode falar de imensas coisas. Pode ser sobre a mudança que muitas vezes custa à sociedade ou então sobre o que é suposto ser moralmente correcto e o tabu. Tantas coisas. Agradeço o comntário. É sempre bom ler palavras assim. Mas não percebi o que querias dizer na tua última frase.

R disse...

E o contador de histórias deu uma grande lição. As personagens desse amor fazem lembrar os heróis das tragédias gregas que desafiam os deuses e entram no "pathos". Muito bom

Leonor disse...

Acho que desta vez consegui com que todos gostassem.

Moon princess* disse...

Gostei imenso minha leonor.
Um amor proibido, ja mais compreendido e com um "fim" trágico..no entanto um amor...
simplesmente lindo.
beijos da tua Penélope

Expresso Oriente disse...

queria dizer que é uma pena que já não exista a profissão/actividade de "contador de histórias" para que contassem essa história usando o teu texto.

Leonor disse...

Nem eu própria conhecia tal actividade. É na verdade uma surpresa para mim

Expresso Oriente disse...

Infelizmente perdeu-se muito antes de se perder a tradição da monarquia na maioria dos países; embora não fosse um entretem exclusivo da nobreza, uma vez que se encontrava também junto às camadas populares. Deves conhecer uma das suas vertentes mais romantizada: a dos trovadores :)

Leonor disse...

Sim sei. Mas acho dificil encontrar um algum que se disponha a cantar o meu poema como um trovador.