quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Tinha saudades
De mim, do meu tempo
Do sossego perturbado;
Vem alma, funde-te
Sê quem sou, torna-me no possível
Traz-me a voz,
Soa as badaladas.
Parece-me infinita a essência
Mas o prazo é a decadência,
E hoje em morte de um fim
Aconchega-te.

terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Quando Chove

Eu quero saber os porquês,
Mas não - cala-te.
Eu quero e também não.

Não existe um todo
Mas não sei o que é o nada

Se soubesses dizias?
- Porquê?

Distorção;
Distorcido, bloqueado

Serei um dia bom...
Nesta ebulição que me ferve

Um passo atrás
Daquele que me leva à frente

Foi uma desvantagem,
Eu perdi.

Posfácio

Apreendi as horas.

Dá-me um segundo,
Mais uma hora

Tic-tac, tic-tac de novo.
Ecoa vezes sem conta;
Seja uma badalada ou todas elas

Pergunta...
Falta quanto tempo falta
Dez para a eternidade ou...

(Não sei, não sei)

Apreende-se as horas,
E o momento já prende

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Tenho dor em mim
E sinto-me sufocar
Já tentei o possível
Cheguei até a implorar.
Não sei mais que fazer
Seja por mim ou por ti;
Quero finalizar este encontro
Não relembrar.
É sempre o mesmo
Dia após dia
Até que o hábito
Acabe com esta minha melancolia.

quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Droguei-me no desperdício
Para quê?
Ausentei-me de realidades
Para nunca mais ter de voltar.
O corpo mói-me pela falta
Mas a tua ausência ecoa no infinito,
E quando de dois se subtrai um
Quebra-se o gelo e o mar cai,
A morte ficar por chegar.
Foi a limitação,
O vazio de aparência.
Chegaste para nunca mais regressar
E este foi o resultado a concluir:
A escolha a escolher,
Foi ditada desde o princípio.

terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Quero,
Amanhã já não.
São vagas
Que por momentos preenchem-me.
Em secundário
Uma mente que nega.
Não, por favor não
Dores de cabeça
E mais desconforto;
Quando tu e eu discordamos
O que fica em comum acordo?
Se alguma vez aceitar, não é por ti
- Por todos.
Leva o seu tempo até morrer
Um pouco paranóico na verdade.
Se valeu a espera
Sejamos felizes - em segundos.

A minha validade expirou
E tudo o resto quebrou.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Segundos após o fecho

Tenho o ódio entalado na garganta.
(ou será amor?)
Engulo a seco

Boa noite dia
Madrugada ilesa

SILÊNCIO...
Quero ouvir o silêncio.

Cuidado quando,
Quando te amam demais

Caminho devagar
Em direcção à bebida
Não me cura
Ou sequer alivia.

Talvez esqueça...

Os barcos partiram
O significado vazou

segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Tinta de papel com asas
Lucinda menina, tacanha;
Mais um cão que se safou
E juntos rumaram a nunca.

sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Amanhã, depois de ontem
Foi num presente longínquo
Talvez num passado futuro;
Sei que foi incerto - temido,
de solução incompleta
Foi num momento decorrido anos
Não contemplado, ou
tão pouco deliberado.

Ficou ausente,

ausente

sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

Jogador


Vadio mais que todos.

Juntos aqui
afastados a anos luz.

São jogos
Falsetes
Dores de cabeça

Não há paciência
Só sal a mais.

Rasga,
Rasga mais uma vez
A mente, o corpo
- O espírito santo

Não dura, não perdura
- A raiva

Enublou, enjoou
E foi pena não ter acabado.

Vegetei, fiquei de coma

A calma,
não veio quando esperava.

quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Não quero, ser


Sinto-me explodir


Há garras, que me cortam a carne
Magoam.
Rasgam

- destróiem quem sou;
Pouco a pouco a essência vai-se,
Deixo de ser quem me amou

terça-feira, 29 de Julho de 2008

Relógios


Beijem-me com ardor

Que não tenho fôlego.

Só há negro e rasgos de branco;
Devias ouvir quando tudo é preto...

Não é fantasia ou animal
É só o ar que me canta,

As árvores murmuram
Choram o cinzento nocturno

Os peixes repousam:
Fervilham na sua solidão

Estou enternecido
Pelo dormir da noite,
Os suspiros do tão pouco que há

A noite nos meus braços
Não vai querer despertar
Ela é minha,
Apenas para eu admirar

Os lagos de vinho moribundo
Qual gentio gato evita,
Inundam-me o coração
- levito eternamente.

Deitei-me no seu leito
Dormi.

Embalei a noite,
Fugi para longe.

domingo, 20 de Julho de 2008

Bright Lights


Parado.

Vejo histórias que se desenrolam
Por janelas intensas,
Repetições de tantas outras
- o metro descolou

O vinho já não basta
Ele próprio acabou
- sustenho o ar

Os encontrões em sucessões
- oscilo na invisibilidade à repugnância
Ninguém me espera.

Foi verde e veio o tinto
Rasca como a minha pele;
As folhas voaram para longe
Eu sou tudo o que ficou.

Acabou o sentido do alcóol
Da vida ou das beatas;
Resta-me o asco
Tão sentido pela minha mãe

Saltei,
E apartir daí foi tudo brilhante

quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Sem tinta na voz


Falta tudo...

De tudo,
Praticamente inexistente.

Vazio.

Não há sentido
Selou-se lentamente;
Pouco escorre ou nada sai
Gotas de futilidade

Dói-me a voz, não a alma
Presa no momento
Presa cada vez mais;
O dano físico que me recalca.

Falta o arranjo,
O conserto ausente;
A existência existe
Mas eu, não a sinto

sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Menina moça


As saias que rodam

Sem sequer parar
Permanecem rodadas
Excepto para a minha destoar
E moça dança,
Dança sem parar.
Provoca-me o ciúme
Irradia-me a frustração:
As cores de raiva consomem-me.
E ela sorri,
Roda cada vez mais
Deslumbra todos com o seu olhar

Tudo pára - o sossego.
Quebrei a roda
Sai do tempo

terça-feira, 8 de Julho de 2008


É morte

Não percebo
Sufocado por entre a enclausura
Um breu mais negro que todos os outros.
Tic-tac, Tic-Tac
As ruelas do tempo
Companheiros calcetados
Íngremes avenidas sem elevação
Quero puder...
Ver mais do que este espectro,
Mas dizem-me que não.
Sinto-me agitadamente inactivo
Inúteis tempos mortos
Escravidão a uma liberdade que nos consome;
Sou fechado...em mim
Estou condenado
Rastejando em terra
Por entre lágrimas
- As minhas ou de outros
E já não são ruas
Mas paredes que me engolem
Como olhos brancos pintados,
De um mal maior que me devora
Esperneio por uma vida que não me compete.
Caio
-Numa queda mais intensa
Não ha fim ou tão pouco começo
Apenas o contínuo momento.
Um golpe
E outro de novo
Um a um os sinto,
Espancado por todos os sentimentos
A verdade tão inimiga
Ou a mentira que oculta,
Até mesmo o ódio que se enfurece
Cada um deles tem o seu juízo.
A morte nesta minha vida
A alma não resiste
Vegetal coma de esperança;
Não há regresso
E a partida foi esquecida.
Suplico;
Mais um homem que o gato mordeu
Pela neve
Sem destino ou abrigo
Candeeiros fundidos
Vergastadas de malícia.

Era so mais uma noite
Inocente e ignorante crespúsculo;
As cores brotam de mim
- E eu sorri

sábado, 21 de Junho de 2008


De trapos feita

Pela maré febril da vida,
Escrevi estas palavras
Somente para as riscar

Pronomes, verbos
Talvez alguns nomes;
Cessei por completo a sua existência

A tinta que fora
Escritos que não o são.
Terão um céu para estarem tão sós!

De espírito deposto na cidade,
Em todos os segundos já mortas

As frases aqui compostas
As demais e outras poucas
Retirando cada um do seu espaço
Pelo que significa ou representa,
Nenhuma encanta
Nem tão pouco me seduz

Seja o escritor que perdeu o brilho
Ou a escrita sem alma
Tudo se presente deslocado
Quando o poeta,
Não é poeta para ele próprio

segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Cowboys Jazz


Senhor não me obrigue
Tenha algum dó,
Não me martirize!
Faltei aos prometidos
Não cumpri os prazos,
Roubei-lhe o tempo
A caneta e o papel
- Não dei conta de tal!

Piedade!
É assim que lhe chamam.
Acredite que não foi por mal,
A inspiração ainda não chegou
Está só um pouco atrasada;
Eu vou conseguir. Por si,
Acabarei as cartas
E a caneta é tão bela...
Oh!O papel tão caro

Tem que compreender
Foram os violinos do diabo,
Sussurrando ao meu ouvido
Palavra, atrás de palavra
Olhe as folhas!
Todas esborratadas,
Vede, eu acabei
Todas as suas cartas!

Fui em frente com a promessa,
Só uma semana atrasado.
Sim foi a inspiração,
Apanhou o comboio errado!
E o diabo pobre coitado,
Obrigou-me a escrever
Veja lá, acelerado.

Compreenda senhor,
Eu ainda sou o seu escritor;
Não o era para enganar
E o que roubei,
Agora devolvo.
Olhe, olhe!
Todas as suas cartas:
Poemas, contos, folhetos de amor.

Não me tome por louco
Dê-me o pão de hoje!
Estou só um pouco nervoso,
As insónias têm-me acometido.
Tudo por si...
Oh!Não me queime na praça
Deixai os meus papéis!
Leia, leia!
É tudo para si.

A loucura persegue-me
Febril febre do dia,
O coração esvai-se em tinta
Já não sou mais poeta.

quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Bairro Alto Groove


Corpos flutuando
Qual água de cristal.

Foi lento, tudo muito lento...
Não havia perdão em nós.
Os tecidos roçagando
Os sapatos que deslizavam
Voltas e voltas sem retorno,
A intensidade consumida;
O adeus das despedidas.

Fui inocente ao relembrar
Tola por ainda acreditar
As memórias não chegam
E a devassidão já é velha;
Quero sorver de novo a juventude
Oh! Quão ingénua.
Julgava ter em mim
Aquele esplendor
Tomara-me por eterna.

Já não há perdão,
Nem tão pouco havia
Resta-me a luxúria,
Lembranças de espectáculo

Para a longevidade,
Até ao fim dos pensamentos
Sou bailarina de sangue,
Aclamada.
Vem até mim,
Uma última vez
Põe a tocar a roda dos tormentos
Dançar, talvez, até...
Não haver mais fôlego.

Deu-se à corda do gramaphone,
Hoje...
A noite canta.

terça-feira, 13 de Maio de 2008

Candelabros de Bolso


Naquele comboio de esperança
Rasguei o coração,
Vagão meio aberto
O acidente que foi notícia.

De ouvidos fechados
Cérebro por explodir,
Sinto-me presa
Vejo-me oca
Cambaleando ferozmente
Como luna-ática baloiçando;
Tactei-o porcaria
Cheiro pudor.
Queria desejar libertar-me
Assegurar um final feliz
Mas tudo é escuro...
Negro de desilusão.
As caixas que me comprimem
Cubículo, acima de cubículo
Descida, sobre descida
Enterrada para os vivos
Morta em suspiros;
Valerá a pena
Ter esperança no que for?
Dia após dia em prisão.

Pianos, contrabaixos e guitarras
Sons de sabedoria
Sons de fim
Sons do amanhã,
A manhã que tarda a vir
Ou que nunca virá.
Um, dois ou três relâmpagos
Chuva na cara que não molha
Cheiros que não chegam;
Eu e tu,
Tu e eu,
Nós os dois e mais um:
Somos tantos
Somos nenhuns,
Almas de muitos
Nas catacumbas de reis.
Pego no meu leve corpo
Levo-me mais além
Suja, comprometida
Por histórias sombrias;
De farrapos esfarrapada
Em espera,
D'um pêndulo que tarda a contar
As últimas certezas
Mais umas quantas tonturas.
Basta de amor
Deixemos para mais tarde
Suposto turpor que te atinge.

Dá-me um final por mim
Empresta-me algum abrigo,
Não cortes a pouca vida que há
Gémea alma inoportuna.
O sadismo em ti tão sádico
Perturba-me os fios já tão desgastados;
Em meu vil, sereno canto
Compromete-te com distância

domingo, 11 de Maio de 2008

Zaratustra falou


Acoçado por isto
Reacções por que me tormentam
Reza o dia em que tudo fuja
E o cálice envenenado estala
Escorre-me o calafrio pelo corpo
Ah - ocorre a espera
Infinitamente tudo será
Seja a minha vida que escurece
Ou o brilho que me fecha o ar
O mundo que foge da minha consciência
E mal consigo parar
Corre, e tudo corre
Avalanche de licores visíveis
Momentos que foram vertidos
Ensurdecedores sons sorridentes
A loucura que trespassa celestialmente
Imaculada raiva doutrina
Vai uma, duas, três de seguida
Hoje há dogmas, amanhâ...
Talvez acabe o dia
Tenho um gato como fachada
Esguio e melindroso
Dá-me o leite porque anseio
O sopro que me rouba o suspiro
Dá-me a faca mais uma vez
Permite-me rasgar o mal
Corta uma, duas, três de seguida
Acalma a ebulição que me ferve

Manhã, gloriosa noite
Beija o mar
E chora-lhe o salgado

Grita-se a esses longos,
Grandes fiordes - deuses de gelo
E quebra-se além o ar

quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Naoko


Gosto de desenhar palavras
Sejam grandes ou pequenas
De esplendor,
Ou de inaúdito brilho

Aqueles borrões
Contendo salpicos
Sarapintaram a minha alma
Sem dó ou piedade

Eu sei que escreverei as linhas
E irei esborratar as caras
Insinuar os tons por que me apaixonei

Vou perder-me nas folhas
Desorientar-me nos números
Tenho que parar - sim parar!

Inspira o cheiro
Desenha até mais não

quinta-feira, 1 de Maio de 2008


Flor, flora
Formiga
Árvore, folha
Botão
Um irmão que joga à bola
Uma prima que brinca com o João

Saias que rodam
Copos que partem
Conversas faladas
Pomares de ideias maduras

Bibes sujos
Edifícos por limpar
Bêbados de rua
Meretrizes por beijar

Corpos fingidos
Males a chorar
Mortes em funerais
Folhas por varrer

Ventos que se arrastam
Baloiços a enferrujar
Mamíferos que se amam
Botas a chiar

Exércitos que marcham
Saltatrizes baloiçando
O gato que dorme
E o João que chora

quarta-feira, 23 de Abril de 2008


Hmm
Hn
Ou pois,
São todos silêncios sussurados

Podia dizer que me enervas
Mas muito me dás nojo

Eu falo, tu não
A vantagem é minha

Tu tens amigos, eu não
Afinal o destino é sádico

Corto a pele às minhas palavras
Existem sons compadecentes

Mas a verdade é uma
Eu odeio-te e abomino
É o meu discurso em suma

quarta-feira, 16 de Abril de 2008


Tenho um grito por gritar
Como uma voz para falar
Não sei como, nem porquê
Mas sinto-me bem no silêncio

Tenho pernas para andar
Como braços para abraçar
Não quero saber, nem perceber
Mas prefiro ficar bem sossegado

Tenho cérebro para pensar
Como uma alma para avaliar
Não me interessa, nem me incomóda
Mas sabe-me melhor ignorar

E acabando a despejar
Desejo querer matar
Não é engano ou mentira
Simplesmente encontro-me indiferente

sexta-feira, 11 de Abril de 2008


O povo português

Muito amável e sentido
Em surdina todos gritam:
- Viva o rei perdido!

No ano de 2091
Muito à frente de qualquer compreensão
Volta na sua nau,
O bom rei D. Sebastião

Muito chora e abomina.
O seu amado, esse
Há já muito tinha ido

Entre as lágrimas que derramam
Ainda não compreendeu
Está noutro tempo
Numa diferente dimensão

Pessoa rebola na campa
Com tristeza a afogar
Ainda não viu o rei
Imagem santa por adorar

Quando mais tarde percebeu
Franzino rei D. Sebastião
Quedou-se de tal forma amargo
Que de imediato faleceu

quarta-feira, 2 de Abril de 2008


Não tenho palavras para sair
Nem tão pouco inspiração
Estou tão seca como uma fonte pode estar
Uma que jorra
E brota ainda assim
Mas que de fresca
Pouco tem para dar

Não há necessidade de mentir
Mais vale acreditar
Que definitivamente estou acabada
Pronta para desistir do meu ar

quarta-feira, 26 de Março de 2008

O hélio do ar


A noite vai lenta
E o dia demora a chegar

Em pequenos sopros arde a lareira
E a cor dos teus olhos desvanecem;
São curtos os movimentos do relógio

Sopra-se um cabelo do teu olhar
E pede-se um beijo,
Prece nunca atendida

Tens tal fogo nunca pensado.
Quis parar
Dizer que é cedo
Recordar para a eternidade
Perder este meu medo

Vou deitar o meu espírito
Pousar este desperdício
Tenho mil e uma febres
E nenhuma por acalmar

Tal tempo,
Que tanto tempo demora a passar
É o meu borrão
A mancha que me corta o ar

Mas com os sons nos tímpanos
E cristais por conta de olhos,
Dou-te a faca
Para finalmente tudo afugentares

segunda-feira, 24 de Março de 2008


De pedra no sapato,
Andei
Corri
Cheirei
Ouvi

Electricidade no corpo
A estática que senti
Pelos corpos que passava
Os encontrões que não contava

Tinha um todo em mim
E eu num todo
Seja a cores ou a cinzento
A ressaca era tremenda

Olhei quem não me via,
Mais algumas cores
Os tais edificios sujos
Imóveis num papel para sempre

Quis gritar, estava rouca
Quis ver, mas havia nevoeiro
Quis correr, acabei por tropeçar

Sou cega, surda e muda
Tal como tu e o resto do mundo
De pouco me serve a medicação
Se a realidade não me ajuda

domingo, 23 de Março de 2008

Se sussurares não oiço


Pronuncia os sons!
O mais alto que puderes

Furei
Furei
É verdade que furei

Escava
Escava
Tentas, mas não consegues

Eu procuro por ti
Tu escorregas sem parar

Minhoca da cidade
Tela de perversidade
Capa de alumínio
Protecção desmedida
Sol da meia noite
Suor de brasa gélida

Em stops cortados
Há espera de sinais
Boas novas em falta
Ou uma tortura já mencionada

Fala-me ao ouvido
Sê meiga por favor
Toma conta de mim
Preenche-me o vazio

sábado, 22 de Março de 2008

Für Elise


Pára!
Mais não
Não quero,
Não!

Estou cansada
Dói tanto;
O que tu me obrigas
Estou reduzida a este pranto!

Malvado ser sorridente!
A tua consciência pouco se importa
Só te preocupas em dar à corda!

Banal saltatriz dançante
De alma magoada
E perna quebrada

Toca e toca sem parar
Nem mais um minuto vou aguentar
Melodia (crack, crack)
Tenho uma perna para amputar

Chega-te perto,
Vamos dançar.

sexta-feira, 21 de Março de 2008

A vodka era Russa


Estás a ver-me?
Não estás não
Consigo olhar?
Porque não?

Tenhos dois pés, amputados
Duas mãos, para o transfiguradas
E um peito deformado

Alegrias - doce vinho barato

Tenho alma, pudor
E um desejo a concretizar
Mendigo da cidade banal
Invisível homem a conspirar

Vou pegar fogo - a ti
Irei encontrar - a tua morada
Perseguir-te-ei até ao fim
E só por me teres visto a mim

Já vai longa a vida
E sou louco
Dá-me éther
Fica mais um pouco

quinta-feira, 20 de Março de 2008

Crónicas de vento


Dá-me água
E algum pão
Preenche-me de vida
Deixa-me falecer em ilusão

O chão é branco
Talvez cinzento
É bonito, agora que o vejo
Mas nada de grande emoção

Tive que sorrir
Era o trabalho
Recebi dinheiro
Ainda que vá morrer aqui

Sou uno com o elemento
Perfeito para meditar
Pequeno toque de inveja
Nada me dá alento

Morre - dizes tu
Falece de uma vez!
Sopra a vida e vai agora

Ponto final parágrafo

quarta-feira, 19 de Março de 2008

Conto de Fadas


Pequeno Gambuzino amarelo
Tinha um problema de luz
Nasceu terrivelmente enfermo
Não tinha corpo que lhe fizesse juz

Pobre chavalo sem asas
Era o que muitos o chamavam
Mais valia ser peixe e não nadar
Do que luzir sem voar

E nos seus 24 dias
Nenhum foi aproveitado
Seguiu-se um, dois e três
E o céu sentiu-se rejeitado

Não houve loucura
Nem tão pouco cópula insana
Era mais um aleijado,
Um pobre coitado

terça-feira, 18 de Março de 2008

Quando Kafka Voou


Um dia tive um gato
Guardado num bolso por aí
Focou-se no desejo
De um dia voar.

Tinha pena do bichinho
Porque lixada era a gravidade
Tal era a atracção
Que só restava cair

Muitas noites chorou
E entre soluçoes engasgou
Ainda tentei demovê-lo
Mas era demasiado pequeno
De jovem não lhe serviu o pepino
E morreu para sonhar
A meio da queda
Os cristais olhos quebraram

Não valia a pena desejar
Ele nunca mais iria cantar.

quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

O Silêncio do Piano


Este é mais um conto
Daqueles que ouvi contar
O mais engraçado de tal aspecto
É que eu sou o objecto em concreto

Havia uma parede
E nela emolduraram-me
Por três dias berrei
E ao quarto desesperei

Talvez ouviram-me
Por entre lágrimas derramadas
Mas o que mais dói
São as suas palavras

Falam em desaparecida
Rapariga morta
E no fim de contas
Sou torturada e eles idiotas

Estou viva, para morrer
Tudo debaixo dos seus narizes
Estou prestes a enloquecer

E no meu último suspiro
Não sei para que penso
Ao menos encontra-me, dá-me descanso

quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

A Fuga das Ideias


Numa praça
Um tanto para o esquisita
Existiam para lá muitos gatos
Mais o seu pastor incerto

Coisas banais estes faziam
Como miar bem alto
Correr sem destino
Ou chatear o seu dono sem tino

E por isto que eu dizia
Decidiram escavar a minha cabeça
Não queria ligar ao que se fazia
Mas muito ia doer decerto

Queria dizer que não morri
Mas da mente tiraram-me todo o afecto
Tanto pior se fossem choques
A verdade é que os gatos já não se chegam perto

segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Quando a Lâmpada Funde


Entrei devagar,
E de muito mansinho
A cidade estava deserta
Apenas se ouvia o murmurar do cimento
O rio parou,
Queria escutar também
O esgosto deixou de funcionar
E os animais que ficaram
Eram de pedra mais dura que os edifícios.
Por entre o pó acumulado
Os passos que seguia
Um após o outro,
Ecoavam por entre as ruelas
Assim foi a entrada:
Um pouco para o torto.
Olhei para o céu
Tinha esperança
Do quê, não me lembro
Mas tudo o que sei é que era cinzento.
Procurei um interruptor
De pouco me serviu
Este facto era certo
Se nem tomadas havia.
Senti-me estranho
Na pele de outrém;
Seria mais uma barata
Estéreotipo reles
Sobrevivente de um apocalipse?

Abri os olhos,
Tão depressa quanto podia
Banhado em suor
Queria dizer que tinha companhia
Mas a cama,
Essa era só minha;
Boa noite pesadelo
E respiração acelarada
Tomei um comprimido
Pensei controlar a insónia que me assombrava

segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

O grito do Circo


A dor existe
Não sei porque dói
Pode parecer ignorância
Mas muito me mói

Já gritei
E muito berrei
Poucos ouviram
Ou tudo fingiram

Esperneei no chão
Debati-me que nem cão
Mas sendo um gato
De pouco serve-me o facto

Num canto quedada
De garganta cortada
Cego os olhos do mundo
Mais os seus ouvidos mudos

Ah! Em mim tenho montanhas
E é como se tivesse pouco
Nos campos feitas as colheitas
Tudo o que ficou foi oco.

Era uma vez um acordeão


Em todos os contos
Que começam por era uma vez,
Um, dois e outros mais
Contos para todos e demais
O meu não difere de tal tradição.
Com isto presente,
E bem consciente
Era uma vez,
Pequena Injúria
Grande sombra sem dúvida
Poderia andar, correr ou dançar
Que ao meu lado acabaria por ficar
Mas de uma habituação feita
A minha alma já não está insatisfeita.
Mas não se enganem, é verdade
A Injúria é uma realidade
E nesta estranha sala
Onde o silêncio e insanidade
Juntos se encontram com fervor
Um pequeno Peixe dourado
Gira e torna a girar
E tudo isto a respirar;
Pouca importância tem
Pois para vós nada desperta
A não ser desejos de bandeja.
Mas velho Dumas cinzento
Na sua campa contorcendo
Vociferando injúrias
Pois tantos dias para a volta ao mundo
Pequeno dourado leva um minuto
Pobre cabeça a minha
Já não é o que era
Pelo menos sempre me dizem
E outra coisa não se espera,
Perdoem-me a confusão
E esta ilusão.
Ela, Injúria
Ri-se da minha figura
Mas preso de boca e corpo
Resta-me apenas o pensamento
E na situação em que me encontro
Não tenho defesa
Nem tão pouco possibilidade
Acreditem em mim
Na minha peculiar existência
Vejo desenganos e mentiras
E com nada posso lutar
É tudo culpa dela!
Injusta Injúria que me persegue.
E no meio disto tudo,
Oiço alto o acordeão
Pois estou num Hospital Psiquiátrico

quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Os Mal Amados da Sociedade


Tenho a certeza,
Até certa medida
De pequenas coisas a outras mais.
Neste dia de suposta paixão
Que a muitos encanta,
Tamanha ilusão pegada,
Mete nojo e muito me farta!
De queixumes a choros
Muitos corações quebrados,
Mais os sem abrigo gelados;
Calem-se! Não quero ouvir lamúrias,
Pouco mais acusações ou injúrias
Neste dia de falta de romance
Pura lavagem comercial.

E extintos para lá do tempo
Nobres romancistas perdidos,
Góticos e obscuros
De amores impossíveis:
Mulheres de láudano suicidas,
Aquiles Homens que choram.
São precisos dois séculos de tempo
Para que eterna mudança se verifique
O amor não vem mais da alma,
Mas de um coração de esferovite.

Não chores, chiu.
És um chapéu perdido
Num sotão para sempre comprometido;
E em folhas lilases,
Num enterro chamado funeral:
Era uma vez tuas plumas,
E o amor morreu.

Não cantes, não dances
O amor faleceu

As flores murcham,
Os chocolates azedam
O beijo não acontece,
E o teu cavaleiro parte
À busca de outra donzela
Aquela que para o ano espera.

Não te enganes mais,
É gato sim senhor
E não tem botas;
Rossa por entre as tuas pernas
Enquanto procuras a carta ausente:
Abres o peito e lentamente despertas
Dor, paixão, absurdo.
Temos um dia de divídas
E uma alma confusa
Paga a quem deves,
Pois o barco não te espera.

Chiu, vamos dormir
A noite vai longa
E o amor não veio
Bem feita, faz-te bem!
Fica à espera,
Como quem não tem vintém
Aguarda e morre de uma vez,
Pois apenas assim
Curas-te de tanta malvadez.
E num dia de anjos,
Vira costas a tudo,
Aprende comigo e ganha juízo.

domingo, 13 de Janeiro de 2008

Pequenos Contos


Naquele momento eu vi.
O terror percorreu-me;
Foste devorada,
Engolida por massas.
Procurei inúmeras vezes por ti,
Mas tudo em vão
E apenas senti tristeza.
E as assassinas, nuvens de escuridão
Após o teu nascimento
Cobriram o teu corpo:
Triste e brilhante,
Belo quarto minguante.
E assim foi:
Todo o céu negro chorou,
A luz evaporou
E a cidade triste ficou.
Adeus lua, até amanhã
Cuida de ti, encandescente pagã.

sábado, 12 de Janeiro de 2008

Um Conto às Nuvens


Menina de Branco, és tu?
Por entre pensamentos
Pensei ouvir-te,
Passeando em memórias
Serpenteando por mistérios.
Sim, Menina de Branco
Quero lembrar-me:
Os risos, as brincadeiras
As tais confidências
Só a ti pronunciadas.
Ah, Menina de Branco
A minha mais profunda amiga;
Amizade que surge da alma,
Dos confins do meu ser.
Quantas vezes questiono,
Onde estarás?
Diz-me, não tenhas medo
A culpa foi minha, da minha infância?
Amei-te como irmã, como amiga
Delicioso amor de rapariga.
E, contudo crescemos
Mas eu nao queria!
Desejava a eternidade ao teu lado
A tua presença, o perfume adocicado
E aqueles imortais dias,
Suaves brisas de Fevereiro
Onde só tu e eu,
Nos deliciavamos uma à outra;
Os contos, o sol, o mar
A paixão de se inocente
.Porque fugiste de mim?
Juro que não foi por mal
Se soubesses o quanto peço,
De novo infantilidade, pureza
Tudo menos maturidade.
Sim, Menina de Branco
Perdoa-me a dor, os dias de escuridão
Mas por ti, não irei chorar
Só quero o sentimento de união.
Menina de Branco,
Eras tão bonita:
De lábios cheios e rosados,
Pele branca e suave;
Ah, o teu cabelo cor de fogo
Incendiava-me por dentro
E quando sorrias,
As tuas sardas eram o céu estrelado.
Tudo em ti grita perfeição
Tal descrita em imaginação.
E o teu olhar ao cair em mim,
Dois botões de verde claro
Faziam-me voar para longe.
Queria voltar a ver-te
Menia de Branco,
Confessar o meu amor
Pedir-te perdão.
E irás para sempre ser,
Um dia chuvoso de Fevereiro:
De frio suave e tépido calor,
Com nuvens desgarradas,
E de um sol sem pudor.
Menina de Branco, por favor
Desculpa ter crescido
Perdoa-me ter esquecido
Mas agora estou em paz;
A Menina de Branco que desapareceu
De grande imaginaçao,
Eras tu Peggy Sue
A menina do meu coração.

Sonata à Ópera


A minha mente,
Salta, salta sem parar
Para o teu lado ir quedar.

Já tentei,
Até gritei!
Mas para sempre quer ficar

Amor profundo em ti
De vontades incontroláveis
E assim escrevi,
Girando em pensamentos indomáveis.

És o esqueleto
O assombro de perfeição
E tocamos em dueto,
O esplendor da nossa paixão.

sábado, 29 de Dezembro de 2007

Idem


Multidões,
Pontos ocos de vontades.
Mal vêem, mal sentem:
Frutos de um passado,
Maduros de um presente,
Podres de um futuro incerto.
Multidões,
Que vês tu nelas?
És de um amor inexistente
Calor enregelado.
E eu grito numa dor sufocante
Ausência de pudor em ti
Sou torre observante,
Qual fantasma intermitente;
Sou bússola sem valor
Compasso de uma vida, pendulo hesitante.
Uma pessoa e mais a sua gente:
Encontros, safanões
Desesperos e procuras
Vacinas de tempos,
Curas imperfeitas;
De corações moles, bruscos
Macilentos e viscosos
Multidões de adjectivos que procuram:
Estradas sem fim,
Caminhos imperfeitos,
Ilusões injuriadas.
Quero o sol e lua,
O universo rasurado
Sim, multidões
Entre elas, sem elas
Alegorias fantásticas!
Imperfeitas visões
Receptáculo defeituoso,
Orgão desfeito
Identidade perdida e, assim sou
Homem corrompido pela solidão
Amargura doente
Multidões,
Seres que nada me dizem.
Amores, almas bolorentas
És um ponto,
Nada mais que isso
Sem conteúdo ou concha;
Tu mais uma multidão
O centro do nada
Fria, imutável, resplandecente
És o grito de todos os teus filhos
Mãe de crimes e inocências
És a vida que odeio,
Transparência que abomino
De cinzento profundo,
Saudável colorido.
Boa noite, cidade
Bem vinda ao meu mundo

segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

À Beira-Mar


Estou dividida
E para sempre indecisa.
Vivo em opostos
Para a eternidade enloquecida
Quero bradar silêncios
Como gritos murmurar
Em opostos concebida;
Em meia perfeição jamais percebida
Sou o copo por encher
A água a transbordar
Não sei que faça de minha quietude
Se para sempre quero viajar
Sou louco sem tino
Ajuízada por demais
Quero o meu canto saudar
Entre multidões vociferar
Alma, fantasma, vislumbre
Ser atormentado entre água e fogo
Senhor Peixes ouve,
Leão Senhor fala.
Escuto ondas, vagas de memória
Sou incandescente, futura erupção
Incontrolável coisa indomável
Esquizofrenia de vida!
Morte e vida por fases
Morre ele, vive ela;
Suicída-se ela, renasce ele.
Copos constantes
Fogos fátuos intermitentes
Vivo de opostos
Razões sem lógica:
Dócil gato medroso,
Eriçado felino astuto.
Tenho luas por agir
Mentes por conseguir
Mulher, homem
Homem, mulher
Quem é quem,
E quem virá?
Sou doido desvairado
Confusa temerária
Sou sentido de impossibilidade
Equação sem solução
De espera a calma,
Caos por advir
Gritemos profundos silêncios
Clamar sanidade!
Vivo da cidade,
Do campo e mentalidade
Quero saber as verdades
Quem é quem,
E quem serei!
Calma ou desvario,
Lógica ou ambiguidade?
Entres peças que encaixam
Há mais sobras que vontades
Um Dó Li Tá,
Serei livre ou fico como está?
Um dia governarei o mundo
E serei um ser só
Opostos deixarei de ter
E a minha vida cessa de o ser
Em vida e morte, um e outro
Apenas um dia se saberá
Em fúnebre funeral funesto
Qual prevalecerá

sábado, 10 de Novembro de 2007

Hemisférios


De passagem na travessa,
Puta de vida esta!
Somos esquizofrénicos constantes,
Temos o mundo em instantes!

Perdida de amores
Por almas proibidas
Choro em profundos clamores
Para caras perdidas.

Falo de surrealismos,
Ninguém me entende.
Atiro-me para abismos,
Suicídio valente!

Todos os dias sou mágoa,
Felicidade e fantasia.
Tal copo sem água;
Falta-me calor e a tua companhia.

Crio mundos,
Vómitos de palavras!
Vivo para absurdos,
Mortes por meias facas.

Desejo sonhos por clamar
A tua presença para amar
Irrealidades bucólicas
Estes fados por desejar.

Sou homem incerto,
De comportamento incompleto;
Altivo e distante,
Verdadeiro gelo cortante.

Oportunidade vãs vivi,
Loucuras, paixões suplicantes
Nestas palavras me perdi;
Graças a suspiros distantes.

Sou corpo, vómito e cadáver
Hilariante lixo de cidade;
Vítima de fama e crueldade,
Olho com desdém a realidade!

E em tempos amada;
Por entre ruas de metal e frio,
Criei esperanças no vazio
Na espera da tua chegada.

Em barcos redondos vou,
Preso por entre terras;
Assobio e já cá estou
Louco às avessas!

Quis manter-te em presença,
Ser louca como tu.
Estamos os dois em desavença,
Pois falta-te amor e subtileza.

De meu nome Pierre,
Conjunto de palavras em espirítos
Alma de loucura e desvarios,
Alguma vez jamais visto!

Leonor suspeita,
De teus gritos farta.
Um pouco de juízo desejo
Este amor de prejuízo basta!

Conversas de pouca dura
Confrontações constantes
Somos dois num espaço só,
Para sempre unidos por um nó.

sábado, 27 de Outubro de 2007

Aleluias


Já eram alturas de viver,
De amar e de sofrer!
Quero abrir portas,
Horizontes salutar,
Quero ir e voltar,
Correr e dançar!
Ver luas de gente,
Navegar mares diferentes.
Quero voar e cantar,
Sentir e saudar!
Ser e desejar liberade,
A pura realidade!
Vem comigo, vem até mim,
Vamos à Cidade Perdida,
Rir, festejar, extasiar.
Vem amigo, imaginar até fartar,
Rodopiar uma e outra vez mais!
Ver chuva cintilante,
Banho de água fria cortante,
Pura chama ardente,
De alma berrante!
Chorar dor e perfeição,
Rir alegria e aberração.
Vamos sorver palavras
E entornar as quadras!
Viver é ser louco e excêntrico ser,
Mas agora, chiu!
Pára para olhar.
Sentados de calmos risos,
A fitar parede branca esta;
Que infinito mais não é,
Do que a soma de vários riscos!
Vejo o futuro, presente e passado
Os Dragões que fugiram,
Os Monges que mugiam,
O Gato que aplaudia,
A possilidade e refutabilidade.
Vá, não me olhes assim,
Ri-te por favor!
Dá alegria por seres,
Afinal somos arte e paixão,
Lixo e podridão!
Orgulha-te e ergue-te,
Sê quem não finges ser!
Olha à tua volta e escuta,
Procuras-te em vão,
E nem querer te desejas!
Anda comigo e vem,
Vamos ao circo, abre a porta!
Dá os passos do teu caminho,
Assobia comigo,
Vamos ver o fim enquanto podemos!
Mexe-te, mais rápido!
Corre e tapa os ouvidos,
Ensurcedor silêncio enclausurante!
Acabou-se o tempo.
Vou voar sem ti,
Cantar como ninguém,
Dançar feliz,
Amar até ao além!
Sem desculpas e remorsos,
Eu vivi!
Sou louco desvairado,
Estou louco, desenfreado!
Tenho-me a mim, a ti e a mais ninguém
Fora multidão e meia ,
Que pouco mais tem de plateia.

quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Tragédias Gregas


Sobre perspectivas audazes
Foi assim que vi,
As árvores mais não eram
E as folhas para longe voaram
Era tudo miríade de cores
Um mar de fogo em chamas.
E desta chama ardente
Com o vento uivante
O outono aqui nasceu; o jardim morreu
E por todo o jardim gritava
Que nem uma louca berrava:
Ninfa do jardim e da luz,
Pelos demais uma lembrança de vida!
Porque não ouvistes estes meus apelos,
Eu que nunca seria esquecida?
Senhora, minha amada
Será que não me ouvistes,
Qual a razão da tua ira?
O doce jardim que me roubastes,
Meus amores que envenenastes!
Em solidão e tristezas choro
Pelos verdes filhos que me deixastes morrer
E do iníco o fim,
A juventude que te apoderastes
Ai de minha beleza,
Vede, olhai para mim!
Corpo decrépito, em decomposição.
O Outuno fizestes nascer
Para mim verdes morrer!
Sois injusta e cruel minha amada,
Com teus truques e esquemas
Que de agora padecem meus dilemas
Porquê o meu amor por ti,

Lealdade tão pura?
Se por mais um dos teus filhos,
Matastes-me apenas.
Oiço passos, esses tão tenebrosos
Fostes tu malvada senhora,
Que a ele me fizestes buscar?
Rogo-te, mil perdões, rezo-te!
Não mandes vil Fauno devorar-me
Outono prevelacerá,
E com ele meu jardim murchará;
Outrora rejubiloso éden,
No silêncio se encontrará.
Amada minha, poupa-me à morte
Sê virtuosa como me ensinastes!
Em lágrimas vãs chorei por ti,
E no teu peito jamais desvanecerão.
Avicena eu sou,
Que da minha morte vi nascer
Fogoso Outono de gélidos ventos.
E com doce esperança
Enquanto vil Fausto se deleita
Não te esqueças amada,
Que por teu amor e desencanto
Eu, por ti, faleci.

domingo, 14 de Outubro de 2007

Babilónia


O que mais receamos é a página em branco;
Invade-nos o medo ao ser como ela
Meras conchas de nada
E assim olhamos, longamente fixando
Estas inúmeras linhas por preencher
Linhas que mais não são,

Do que profundo horror imaginário
São os nossos fanstasmas e pesadelos,
Os diários de revolução.
Durante os dias que passam
Evitamos o confronto
A batalha inevitável
O herói por morrer e lenda por nascer.
E ainda que, estoicamente nos debatemos
Estas páginas acabam por vencer
Por meses afim que,
As nossas palavras ficam por dizer
As mentiras por se contar
As verdades por se pensar
Em sono profundo o mundo entrará
Qual adormecida beleza,

Por monstros e selvas guardado.
Todo o esforço em vão
Aquelas que foram vontades inabaláveis
Numa folha branca em que ninguém ousa
Mas onde corajosamente tentamos
Como muitos antes de nós
De cidades queimadas,
E multidões torturadas,
Para que finalmente preenchida a folha fosse
E assim o prédio ruíu
A história surgiu
Palavra após outra
Entre suspiros de épocas, maldições de eras
Quais desejos em espera.
E o som destas guerras
Graves contrabaixos gritantes
Sons de um senhor aprisionado,
Que abala o tempo em cada momento
Encantando-me qual mágico sem pena
E aqui eu escrevo,
Escrava da minha mente
Serva destas páginas
Hipnotizada pelo seu vazio
Esse tão parecido com o meu
Tempestades a que fugimos,
Reboliços de dor e paixão
Uma folha em branco,
Que mais não é o branco da sua folha
Essa mesmo que é a minha tradução
E quando dois mais dois são quatro
O meu vazio fica por preencher.
E dia após dia
Sinto o cravar da vida em mim
Qual caneta que escreve
E no medo que me tenho
Escrevo em mim própria
Para ocupar o vazio que sinto
E nesta forma de concluir
Que de mim não sai
Igual repetição de vezes e vezes sem conta
Espero um dia escrever numa folha branca
Tudo o que escreves em ti

domingo, 23 de Setembro de 2007

Poetas Loucos


Todos os dias somos máscaras
Impossibilidades de verdade
Tudo é o que não parece
Pois escondemo-nos da realidade
Podemos até querer, desejar
Mas apenas à Lua nos revelamos
Monstros vestidos de mentiras
Centauros de faces brilhantes
Pelo teatro conhecidos
Cativamos pela ilusão
E dela não desejamos realmente um fim
Encantados antes pela sua sedução
De braços cruzados ficamos
E pouco ou mais ousamos
Ouvimos histórias sem fim
E assim nunca nos revoltamos
Temos medo de nós próprios
De doces olhos implorantes
Pois por detrás de tal olhar
Encontra-se monstro uivante
Tal é a habituação
Que por anos a fio deixamos
A vida acaba por tornar conta de nós
E de normal a loucos ficamos
Damos graças à norma, à moral e ao tabu
Mas com eles comuns nos tornamos
Meros homens trovantes
De nenhunma glória importante
Tornamo-nos monstros do medo
Heróis de todos os dias
Fugimos de individualidade
A causa da nossa condenação
Eu digo que sou estranho,
E por isso não quero sofrer!
Eu afirmo que sou louco,
E por isso não quero falecer!
Tenho crenças por gritar
Quebrar muros de terror
Parar com o fingimento
Este governo absoluto
E com discurso político acabo
Este com o intuito de mudar o mundo
Promessa tal que nunca cumprirei
Por ser um contra tudo
Mas estes são meros apelos
Para uma coragem sobrenatural
Uma de tal proporções
Que do céu o inferno se elevará
Serei o autor de tais utopias
Governador de loucura
O Grostesco de todos os pesadelos
Aqueles por quem todos se arrepiam
Mata-me agora!
Neste momento de fraqueza
É a tua última oportunidade
Senão ganharei concerteza
Hoje a palavra é minha
E o sonho realidade
Agora sou livre
Imortal para toda a posterioridade!

sábado, 1 de Setembro de 2007

Histórias de embalar


De voz forte e sentida
Ouvia-se bem no fundo
Lá na feira colorida
Homem forte e sizudo
Queria falar de maravilhas passadas
Contos ilusórios de perdição
Histórias de amor trágico
Aquelas que nos tocam no coração
Muita gente reunia
Hábil homem orador
Miríade de pessoas e alegria
Prontos para mais ardor
Na jaula rugia a fera
Na corda dançava a saltatriz
Espectáculo desta era
Pois toda a gente o diz
Pelo começo se introduz
Este que na noite profunda se encontra
E a isto o cenário se reduz
Porque pouco mais importa
Conta a lenda há já muito
Que Belo e Grotesca se amaram
Trágico amor funesto
Aquele a que se destinaram
Jamais se deviam ter encontrado
Par estranho junto
Mas de incógnitos esquemas o Fado
Faz decerto o seu conjunto
De longos anos foi a paixão
Que muitos quiseram separar
Ele por ser Belo ao ponto de ilusão
Ela Grotesca, algo de abominar
Mas doce a ironia
De nada possuir grotescamente
Era apenas mais uma mulher nascida
De profunda fealdade ausente
Ele por seu oposto
De comum beleza e fragância
Irradiava qualquer rosto
Devido a pura ignorância
E assim ambos sofreram
Acusações, injúrias e mentiras
Estas que não os demoveram
De fortes mentalidades e filosofias
Nesta história contada
Suposto herói exaltado
Morre de pura velhice mirrada
Com a morte na cama deitado
E ela fica de nome por defender
O ideal e personalidade
Que naquele tempo jamais iriam compreender
Sem enorme ridicularidade
E a moral aqui fica
Por o proíbido se ter amado
O que a sociedade tremendamente implica
Por não querer nada de errado
E este amor trágico chegou ao fim
Sem ninguém o compreender
Triste alma derramada assim
Que acabou por morrer

quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Entre Nós


De que havemos falar,
Quando não temos certezas?
Sei de cor as tuas letras
E tu de memória o meu nome
Mas já nada disso basta
Ao termos em mente
Que demos um passo em frente
E assim somos,
Ambos desconhecidos
No nosso mútuo compreendimento
Ao que nada valem os supostos conhecimentos
Tento avaliar essa face visível
Para mais tarde descobrir
A lua invísivel
E assim ficamos
Sem conseguir evoluir
Pois eu penso que alcancei
Todos os tesouros e segredos
Para me fugirem entre os dedos
Perante ti na ilusão
Ou na tua ausência em desilusão
É injusto tal acontecer
Pois eu quero desvendar
Caminhar para o saber
Ler as tuas entrelinhas
Sugar as tuas tonterias
Mas de nada o nada obtemos
E insossos ficamos
Por falta de melhor resposta
Ao que mais ansiamos
Até podemos andar, viajar
Entrar num carro
E ver paisagens até fartar
Que o nosso silêncio permanece
Enquanto a faca não cortar
O que fica quando nada se esclarece
Deixas o que nao deverias deixar
E permites-me imaginar
Se seria diferente
Estas situações superar
És como um íman de mil faces
Envenenando a minha esperança
Atraíndo e afastando
Mas nunca ao teu lado
Definitivamente ficando
Deixas-me confuso
Sem forma de agir
Nem sequer uma ajuda
De como sentir
Podemos talvez desejar
Um dia alcançar
Todas as respostas que procuramos
Mas até lá,
No mesmo ficamos

quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Amarras Brancas


Nas vidas que temos
Discutir é o que está a dar
Ora porque não lemos
Ou a vida está a acabar
Mas nestes ciclos sem fim
Onde galinhas de aviário
Encontram-se em secundário
Eu falarei de sóis
Enquanto tu falarás de anzóis
Apesar de não ter sentido
Não percamos o sizo
Assim comecei
E aqui errei
Ao explicar o mesmo
Que já tinhas explicado a mim
Ao mesmo voltamos
Sem que ele tivesse algum fim
Mas como o fim assim será
E para sempre ficará
O mesmo voltará ao mesmo
Porque é o mesmo
Que está para aterrar
E assim o mesmo terá
Pois a si mesmo quis superar
E disto mesmo
No mesmo cairá
Porque daqui saiu
E não fugiu
E em mesma coisa ficamos
Porque nada alcançamos
Tal erro, erro é
Que acaso algum elucidamos
E nisto o mesmo fica
Talvez por birra
Ou mesmo por se apologista
De causas perdidas
Que assim mesmo ficaram
Pois ao abismo destinaram
E em tudo isto
A o mesmo embicaram
Tardando já
O longínquo fim alcançar
O mesmo que anseiam para me calar
Mas aqui mesmo desejo
Que o mesmo todos desejem
Talvez por burrice
Ou com vontade de gralhice
Com enorme afecto
Que de vós mesmo espero
O mesmo que vós esperam de mim
O resumo a todas as partes
Que é apelidado de fim
Mas com o mesmo
Que de certo fartos estão
Delicio-me tanto como no início
Por o mesmo ser a causa
Do vosso hospício

domingo, 12 de Agosto de 2007

Retratos


Esta é a história!
Que aqui está para ficar
De dois antigos velhos
Que a voltam ao mundo deram
Voaram em palhinhas
Montados em fuinhas
Nenhum deles sabia o que fazia
Nem tão pouco o que se dizia
Falava-se de loucura
Falava-se de insanidade
E tudo o que eles alegavam
Era pura mentalidade!
Nada disto faz sentido
Mas que pouco importa
Se estamos vivos!
Eram velhos e senis
Solitários loucos que gritam!
De sua companhia solidão
Mais o silêncio de uma multidão
Percorreram o mundo da sua casa
Colecções de uma vida
Foram as rochas encontrar
O fim do mundo e o seu ínicio
Voltas e voltas deram no horizonte!
Na procura do significado de uma vida
Que aí se deixou ficar
Sem que alguém o pudesse alcançar
Se não fossem velhos idosos estes
Estariam presos gritando
Em jaulas sem barras
Pintadas de branco!
Ninguém quer saber
Ninguém houve
A ameaça da pistola de fogo
De um isqueiro velho e sem função
Assim são os nossos velhos
Vão ao farol atirar-se de alturas!
Enquanto cá em baixo estão
Olhando sem perguntas
Tudo isto é loucura e muito mais
Vã a procura de sentido onde não há
Mas existem estes velhos
Tendo tanto de loucura como sanidade
São os mais sábios de qualquer povo
Conscientes da sua verdade
Ninguém acredita neles
É pura insanidade!
De coletes postos e amarrados
Falam de sabedoria difícil de assimilar
Os mais jovens falam com desprezo
Tudo neles é troça e incredibilidade
Que mais tarde irão pagar com insanidade!
É a história de uma vida
E de outras mais:
De anormalidades que são verdades
De mentiras que são sanidades
De loucuras que são normalidades
Esta é a história!
De dois velhos e nada mais
Foram às rochas
Caçar e ser caçados
Para o mar pescar
Os azares de peixes e moluscos seres
Deixando, finalmente, escapar
Triunfante último suspiro
A volta ao mundo acabou
Tal como a insanidade e o martírio!

terça-feira, 24 de Julho de 2007

Xeque - Mate


De chapéu escuro e cara escondida
Abrigado no amâgo daquelas noites frias
Caminhava ele por essa rua
Esguio vulto estranho
Por de baixo de painéis luminosos
Contornando duvidosas esquinas
Insensível a dúbia gente
Iluminado pelo céu estrelado universal
De passo firme e ritmado
Há sua volta existem sons, vida e brilho
Os semáfaros coloridos
Os zumbidos de multidões automóveis
As mulheres de cristal dançantes
E tudo isto e muito mais lhe escapa
Corpo vazio, sem conteúdo
Olhos negros como o abismo
Sem vivacidade ou desejos
Encaminha-se para mais um caminho
Mil vezes antes percorrido
E que outras mil vezes será cumprido
Alheio a tudo e o demais
Copo de água ausente
Não vê para além do cimento a seus pés
Não olha para lá da avenida em que caminha
As ruas não lhe importam
Os ruídos não o pertubam
O vagabundo efeito algum produz
A prostituta não o seduz
A cidade, a noite, o frio
São para ele o mesmo que ele próprio
Ausência de matéria e interesse
Vulgaridade absoluta sem fim
A sua jornada contínua
Infinita como todos os seus dias
Ciclos de começos e finalidades
E, ao seu destino chega
Imponente prédio de inúmeras janelas
Imensidão de estrelas decorando as suas frontes
De chapéu na mão e cara descoberta
Iluminado vulto estranho
Faces brancas iguais a tantas outras
Rosto que nada diz
Mais uma vez no seu escritório se encontra
Perante a sua máquina de escrever
Perante os seus papéis e canetas
Estranho indivíduo sentado
De coração vazio e alma por encher
Interroga-se sobre o que é que há-de de escrever
Os seus sucessos já foram
A sua juventude e imaginação,
Não são mais que um filme agora
E apenas lhe resta reescrever
Histórias tantas já contadas
É um escritor frustrado
Que repete para si vezes sem conta,
Estás acabado!

sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Avenida Dele Próprio


De noite, bem no escuro
Ele andava por aí.
Era a presença no beco,
O vento que arrepia,
O gás intoxicante,
A sombra fugidía.
Tal contaminação de alma
Que acaba por nos purificar
Piruetas mirabolantes,
De pássaros dançantes.
O vangabundo coberto de poeira
O bêbado vestido de alcoól
O vomitado no chão manchado
Tudo isto ele era
E muito mais se espera
Folhas pulsantes de raros seres
Nauseabundo cheiro de doces perfumes
Nele há luz e vibração
Droga estática que nos consome
Esmalte pingado no balcão
Pintura esborratada de uma mulher sem memória
Em todos nós o sentimos
Intrépidas mãos, frias como o metal
Deseja a vivacidade,
Suga-a com vontade,
E cessa de existir a realidade.
Malvado ser que se esconde no esgoto
Por de trás da esquina observando
Num telhado empoleirado
Atrás de nós vigiando
Ele é o conto, a história e a paixão
Cigarro aceso de fumo apagado
Avé Marias e poligamias
É de um mundo complexo de tudo o mais
Ressureição de vidas estagnadas
Suicídios de bolhas brilhantes
De vitíma escolhida, assassínio marcado
Almas adormecidas, sonos pausados
Ele é o metal, cimento e tijolo
Nele eu viajo, ser extasiado
Os meus olhos observam-o
Néons flurescentes,
Sinais intermitentes,
Viagens intensas,
Janelas imensas,
E os quadros da sua vida
São o êxtase dos seus traços.
Vivos, compassados
Energéticos, drogados
Intensidade de cores e brilho,
É o cubismo, surrealismo, futurismo
Linhas rectas de redondas faces.
Assim ele o é,
O pobre que pede,
O cão que geme,
As prostitutas de saltos
A escuridão de bairros.
Ele o era
E muito mais se espera

segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Insónias


Aquelas noites,
De brisas electrificantes
De corpóreos rugidos monumentais
Mágicos luares passados
Tumultos deslavados
Foram assim, finitas noites esplendorosas
Memórias obscuras, desfocadas
Acrescidos sonhos que o foram
Na curta vida existencial, mais um tesouro que naufragou
Diminutos dias estrondosos
Aqueles por que delirei
Viagens a Índias impossíveis a que rumei
Aliciamentos em terras de marfim
É o testamento a que me proponho
Que aqui se encontra descrito
De alegrias e emoções eternas
As tais que desvanecem com o tempo
Sou assim, a testemunha de luzes e sons
Espectáculos mirabolantes dos meus pensamentos
Choros de alegria, gritos de prazer
Irmãos de ocasião
Corações em união
Linguagem universal de fantasias
Sonhos momentaneamente realizados
Posteriormente desfalecendo
Eu e a demais multidão
De gritos em irmãs causas
Cruzados em demanda pela felicidade
As batalhas calmamente travadas
Em excitamento e confusão ordenada
Diferenças onde não existem, semelhanças que diferem
Igualdades de razão
Por breves momentos fomos unos
De esperanças concretizadas
Corações de janelas abertas, puros
Sístoles sincronizadas com ardor
Somos o desespero e a emoção
De o nirvana alcançar
Somos o choro e a alegria
De tal experiência vivida
Quero explodir de sentimento
E bramar aos céus tamanha perfeição
Por breves momentos, nada mais importa que a paixão
Tal apego a incomparáveis tesouros
A capacidade de sentir com tamanha vivacidade
Mas fiquemos por palavras
Aquelas que descrevem a emoção e o sonho
Esses que já vão longe
E com isso teremos de nos contentar
A memória de tais palavras que aqui permanecem
O espectáculo acabou
Os grandes gatos recolhem a suas jaulas
E o sentimento desvanece
O testemunho cai no esquecimento
Mas por breves momentos
Fomos heróis de tempos esquecidos
Irmãos em cruzadas impossíveis
Luzes e sons de paixão irreal
Fomos...Os nossos sonhos e esperanças realizadas
E assim a cortina desce, o circo desaparece

terça-feira, 26 de Junho de 2007

Boneca de Porcelana


Sou boneca de porcelana de belos sorrisos
O meu vestido impecável e inocente
Frágil de aspecto e de olhos brilhantes
De porte rígido e elegante
Delicada candura de movimentos
Pequena figura de menina que passa de mão em mão
Louvares e deleites, suaves encantamentos
Sou a dama de branco na bola de cristal
Quebradiço brinquedo de exposição
Ninguém repara na minha agonia
Na timidez da minha aparência
No medo dos imensos olhares que me percorrem
Os meus gritos são silenciosos
Os meus suspiros abafados
Boneca perfeita de porcelana chinesa
No vestido que aperta
Trespaçada por fitantes buracos de arco íris
Quero parar de sorrir, de agradar à plateia
E dia após dia, hora após hora
Novas multidões se acercam
Comentários afáveis, discursos aprazíveis
Finjo, continuadamente, finjo
Este sorriso que esforço
Esta postura que não minha
Na suave tentação de Gepeto
Sei que a minha criação não é por mal
Este que, orgulhosamente, me apresenta
Eu, a sorridente boneca de porcelana
Filas que não o são, centro de comoção
Em rodopios e rodopios de mundo sorrio
Por quanto tempo mais?
Quero voltar a ser a Cinderela sem sapato
Gata Borralheira de cinza
Murmúrios de simpatias, desabafos de descontentamento
Compreendo Gepeto, desejos de contos de fadas
Eternidades morosas, infinitos tempos
Na estante empoeirada cá estou eu
Boneca de Porcelana de belos sorrisos
Frágil de aspecto e de olhos brilhantes
Carênciada de afecto, de excessiva atenção
Chôro de dentro, alegria de fora
Quero um abraço, uma doce emoção
Olhos aterrorizadores de inquisição
Na empoeirada estante que cá estou eu
Os impossíveis labirintos de completar
Sapatos de cristal, estes que possuo
De bom grado dou a quem os quiser
Abóboras e torres, essa maldição
Sou a Cinderela que Gata Borralheira quer ser
Olhos brilhantes de água salgada
Belos sorrisos fingidos
Elegante candura de rígidas vestes
Sou a boneca de porcelana chinesa
A primeira de infidáveis martírios
Inúmeras outras que se seguiram
Multidão de olhos cansados
Da criação de Gepeto fartos
Encontro-me no escuro frio, no pó vazio
Em solidão adormecida
O meu corpo cansado, o meu sorriso desgastado
A minha alma por encher
E o suave cantar do grilo se ouve
Canções de diferentes eras, armários de segredos
Para outros tempos estou guardada
Para outras alturas ser mostrada
Sorridente boneca de porcelana

segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Naus e Caravelas


Estou presa em mim mesma
Incapaz de me libertar
Os meus sonhos destroçados por meras sobrevivências
Quero gritar ao mundo
Falar de injustiças!
Mas sou eu a cega, quem não olha a verdades
Enganei-me a mim própria
Mais do que devia
Ó Tágide minha!
Porquê tanta hipocrisia?
Falamos de bem, desejamos o mal
Más línguas falantes, venenos dispersantes
Quero ver, curiosidade felina
O resultado de tamanha epidemia
Luz brilhante de um fogo opaco
Destruição de vidas, apocalipse vindouro
Naufrágios de muita gente, qual Adamastor enfurecido
Não somos mais praia ilustre Lusitana
Meros destroços gloriosos
Fui sonhos e ilusões
Sou despojos e pilhagens
Quero fugir de demónios jocosos
Inúteis gladiadores mortos
Meu pobre, humilde batel
Não sobrevives à tempestade da minha mente
Tais esquerdas racionais, absurdas
Tamanhas direitas criativas, inoportunas
Que é de mim e da minha rota?
A caminho das Índias, América perdida
Afogo-me cada vez mais em incertezas
De que alguma vez conseguirei respirar
Doce Inês de Castro perdeu-se em amores
Lá se foi a sua cabeça!
Perde-se-me o juízo
Lá se vai a minha certeza!
O mundo dá voltas e muitas voltas dá
Mas contínuo sem compreender
Engano-me a mim própria
Mais do que devia
Deixo fugir-me por entre os dedos
Alto lá que é ladrão!
A doce ironia de roubar a minha pessoa
Não me condenem já
Não me mandem para a fogueira
Sou pessoa só mais uma multidão
Inconstância de pensamento e acção
Deitei tudo a perder por caprichos e especiarias
Enconberta da manhã, rasgo branco de esperança
Fugi, de novo, a mim mesma
Enganei-me a mim própria
Mais do que devia
Os sonhos naufragados nessa doce maresia

sábado, 23 de Junho de 2007

Fúteis Existências


Inúteis tempos mortos,
Tempos de quem já foi
Tempos de quem é
Tempos de quem será
Momentos angustiantes de existencialidade
Esperamos, longamente, esperamos
Não somos nada mais que nós mesmos, e ainda assim
Algo mais, pertubador
Existências postas à prova
Inutilidades testadas
Divergências, convergências, futillidades
Todos esperamos, absurdamente
Angústia de exércitos de palavras
Desesperantes gritos agudos, no abafado silêncio de alinhamento
Existência vâ, sofrimento oco
Falta-nos a esperança por pouco
Miseráveis queixumes de ninguém
Comparamo-nos a sofrimentos mundiais
Para nada sabermos o que é sofrer
Que é isso, sofrer?
Sofrer realmente como quem já sofreu mágoas e injustiças
Somos ninguém em nenhures
Vacilamos por meras casualidades
Fracos, cruéis, mesquinhos
Mas, esperamosLongamente esperamos
Inúteis tempos mortos, não o deixam de o ser
Sofredores por minímas causas, seremos
Esperamos longamente, por longas horas
Suave martírio moroso, tic-tac
Finalmente acabou
O toque soou

sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Amor de perdição


Andava por aí
Sem saber por onde caminhar
Acordava porque era regra
Sem vontades próprias ou desejos
Encontrei-te a ti, a andar por aí
Dia após dia, a mesma programação de rotina
Transparência sem vida
Olhei e tu olhaste, reparei e tu ignoraste
Para ti, só o abismo importava
Aquele em que te encontravas
Preocupei-me, em vão, por ti
Assim ficou escrito, pois tu o disseste
Não queria afogar-me em mágoa
Quis agarrar-me a ti mas não deixaste
Conversas inúteis, passar do tempo dia a dia
Milagre dos céus, que terá acontecido?
Mudaste para mim, o teu olhar aquecido
Subtil mudança de suaves brisas
Ganhei corpo e espírito para ti
O fim da existência de um mero fantasma
Eras a esperança que procurava
Ainda assim, como todas as maravilhas
Existe sempre um mal maior
O meu coração quebrou, parei para ouvir os seus estilhaços
Anjo maldito que há em ti
Não te condeno por sonhos irrealizados
Admiro-te por sinceras palavras
Verdades e coragens pronunciadas em cemitérios silenciosos
Uma promessa para toda a vida
Tornar-me-ia demónio por ti, senão fosses já iluminado
Alusões a tempos dolorosos, mágoas que não foram esquecidas
És o príncipe do passado, rei de areias movediças
Quero terminar esse reino de sofrimento
Elevar-te a um paraíso de felicidade
Utopia impossível, sonho de menina
Alegria de tempos presentes, arrufos de tempos futuros
Andava por aí
À procura do teu jardim
Encontrei-te assim, à procura de uma árvore
Essa que por fim, selaria o pacto para a eternidade
Árvore imortal de tempos infinitos
És o calor do meu coração, chave de um baú sem cadeado
Palavra de algo real
Feitiço de um canção eterna
És o Valete de Copas, eu a Dama de Espadas
Separados por fronteiras, juntos por corações
Pensantes cabeças de igual, espelhos de água um do outro
Um dia desejo, que este sonho que escrevi
Seja a realidade dos meus dias
A moldura, finalmente, preenchida

quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Encontros banais

Um dia encontrei-te
Começámos a falar
Eras só incertezas, nem tu próprio sabias o que dizias
Horas esquecidas, conversas que não ouvias
Falava contigo mas parecia que não compreendias
Estás aí?
Respondeste que sim
Afirmaste que te distraíste
Olhar confuso, abstraído
É assim, falar contigo, dialogar com uma árvore balbuciante
Palavras de folhas caídas, tempo perdido
Desabafas o teu coração
Choras o que não tens, deitas a perder o que possuís
És um puzzle de cem peças
Falamos, uma e outra vez mais
Bloquei-os mentais
Voltamos ao mesmo, quantas vezes já?
Não prossegues, não retrocedes
Estamos a falar de quê?
Percebo-te ao mesmo tempo que não
Deixas-me confusa, perplexa
É melhor ir-me embora, há mais que fazer
Pedes para esperar, momentos estagnados
Explicas, uma e outra vez de novo
Tenho um problema, não te acompanho
Mil perdões e desculpas
Falas de vazios e esquecimentos
No entanto, até que é agradável
A cabeça fica leve, por te encontrar
Silêncios, uma e outra vez de seguida
Estávamos a falar?
Já não me recordo
Procuras a perfeição, eu o infinito
Acho que acabou, o cruzar do nosso caminho
Adeus, foi bom poder falar contigo
Até um dia, até mais
Espera, digo eu
Porquê falar de esquecimentos?
Pergunto algo para o qual já sei a resposta
Talvez, penso eu, por querer ouvir de novo
Fingimos que nos importamos
Dizemos que não vamos esquecer
Porém, temos o tempo contra nós
Mudanças de forças imagináveis
Finalmente, o adeus
Digo até breve, mas não acredito
Pronuncias um até amanhã, não é sincero
O nosso tempo acabou, o nosso caminho descruzou
Novos tempos e destinos
Foi bom conhecer-te, foi bom falar contigo
Até logo, meu amigo

quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Os Baloiços


O sono já é muito
Suave canção de embalar que me fecha os olhos
Doce infância desejada
Saudade intensa de um alegre tempo
Sou a criança que nunca cresceu
Sou a esperança de um castelo encantado
Adocicado o cheiro de flores frescas
Relembram-me a minha mãe
As tenras carícias do seu colo seguro
Tristezas, pesadelos, noites mal dormidas
Choros infantis de monstros imaginários
Aconchego do meu coração saber que me seguraste
Infância perdida
Sou o tempo gasto a querer crescer
Sou o tempo inútil a querer rejuvenescer
Quando era criança, era alegre
Mas agora, o que sou?
Massa cinzenta abstracta
Obtuso ser complicado
Anseio pela simplecidade de ser
Apanhada, escondida
Estrelas mágicas, ilusões misteriosas
Quem era o homem atrás da minha porta?
Nunca saberei, já cresci, desapareceu
Onde estão as vozes?
Não sei, já cresci, desvaneceram com o tempo
Tento, cada vez mais, em vão, acreditar
Fadas, dragões, sereias, feiticeiros
Jamais vieram procurar-me
Eles que prometeram, que nunca iria crescer
Que sou eu agora?
Cálculo, matéria, relatividade, filosofia
Essência orgânica degradável
Querem que eu envelhaça, lentamente
Consciente da minha própria mortalidade
A tortura eterna
Quero os sonhos que me pertencem, os desejos roubados
A minha infância perdida, oiço-a não muito distante
Mas não é algo mais do que o passado
Momentos esses que se afastam
Estas palavras são o diário do meu envelhecimento
Acréscimos de frases turbulentas
Fui enganada, os meus sonhos apagados, os meus desejos alterados
Quis voar, mas agora quero sobreviver
Não quero ir dormir, não quero iludir-me
A criança que fui desapareceu
Raptaram-me e ninguém me procurou
Sou um capítulo inacabado, mas quero ser a frase inicial
Sou a passageira de uma vida que observo à janela
Vejo crianças a brincar, mas não estou entre elas
Perdi-me e tento encontrar-me, a agonia de não saber onde pertenço
Sei que sou criança, contudo dizem que não
Há muito, que não vejo o homem atrás da porta
Há muito, que não oiço as vozes
Há muito, que cresci
Vim a este mundo para o deixar
Maravilhoso mundo de ilusão
Somente nas lendas referido, poderemos apenas imaginar
O sono já é muito
Por favor, mãe, deixa-me ficar acordada só mais um pouco
Quero ver as estrelas a dançarem
Quero ouvir as árvores a falarem
Quero... Infinitamente sorrir de alegria
Por favor, mãe, só mais esse desejo
E, depois, finalmente cresço

terça-feira, 19 de Junho de 2007

Amantes


Amor à primeira vista, hipnotizante
Alma gémea encontrada
Sentimento sincero, duradouro
Ilusões corporais que toldam a vista
Embriaguez química de um instinto animal
Profundo desejo despedaçado
Casamento atraiçoado
Emoção verdadeira, arruinada
Amor de perdição, divorciado
Confusões de afecto e sentimento
Paixão e desilusão
Cama quente, fogo ausente
Chama de uma noite gelada
Concretos seres e aberrações corpóreas
Somos a carta de amor ardente
Sereias cantantes, hinos de paixão falante
Filhos da abstracção inexistente
Ai de nós meros mortais
Frutos de lanças e guerras
Os Deuses em desacordo
Somos a esperança de que o amor exista
Instinto que desvance
Animais amantes num orvalho distante
Lua Cheia que transforma heróis em monstros
Avassaladora guerra, uivos da noite
Gritos de quem lançou as suas armas
Sete almas perdidas mais o resto da sua gente
Paixão verdadeira multiplicada pelos demais
Fiéis orgias para todos
Monogamia fingida
Culpado quem quebrar a preciosa regra estabelecida
Senhor que estais no céu, santificada seja a vossa multiplicação
Gémeas almas atraiçoadas por animais instintos
Tomai todos e bebei, este é o meu corpo que para todos vós partilho
Leito quente, coração frio
Amor e desejo
Suave pecado permitido
Longos minutos, curtas horas
Prazer de um serviço concluído
Dilemas morais impedidos por emoções fervorosas
Os Jardins de Baco são bem apreciados
Ninfas sedutoras, carne fraca
Somos o que negamos ser
Monstros da Lua Cheia, Lobisomens uivantes
Nocturna noite clarificante
O rumor das flores dançantes
Suave néctar derramado

segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Cisnes


Fantasma de gritos abafados
Sorrisos que ninguém vê
Olhares desajeitados, fingimento absurdo
Essencialmente existo, desconhecimento de ausência
Rasto apagado, a luz fundida do sol
Sou assim um pássaro que se recusou a migrar
Afluência de banalidades, migrações sociais
Múrmurio das folhas do meu jardim
Árvore minha, poiso meu
Fiquei para o Inverno, quis ver a fonte gelar
Olham através de mim, para além do meu paraíso secreto
As minhas infinitas cores por definir
Para trás fiquei
Os meus gritos são múrmurios
Pássaro migratório solitário
Todas as estações têm o seu esplendor
Ignorância padecida
O meu jardim é silencioso, a estação da morte aproxima-se
Para trás fiquei
Aberração de cores
Sou o fantasma que ninguém vê
A minha fonte é cristalina, o meu sossego precioso
Esperança de cisne, fado de desilusão
Os eleitos da jornada retrocedem no tempo
O Verão desejado de um tempo finito
Ouvidos moucos não ouvem, esses que são todos iguais
Sozinha no meu jardim, solidão momentanea
Raridades do Jardim Selvagem
Há cantos no meu paraíso
Poucos que ficaram, cantares de maravilhas
O Inverno não é só o adormecer
Nem tudo é o que parece
Esplendor de cores, rejubilação do meu jardim
Carvões de diamantes
Vozes ouvidas, confissões secretas
Fantasmas translúcidos, assombrações de outros desiguais
Transparência ignorada, inúteis migrações
Vôo alto,para os confins do meu paraíso
Cisnes de diamantes, arco-íris de emoçôes
Sou essência para quem me vê
Alegria do tesouro apreciado
Migrações porquê?
Falsos olhos que coisa alguma vêem
Olham paredes, alusões a um nada concreto
Escolhi ficar, num jardim que é o meu
De quimeras absurdas afastei-me
Procuro o meu caminho
Sussuram palavras que oiço
Eu grito silêncios mudos
Aterradores monstros que não o são
Imaginações verdadeiras
Rouquidão desnecessária, alma opaca

domingo, 17 de Junho de 2007

O Monte Juno


Sou a faca que corta o teu espírito
Emoção perdida
Tenho alma e desejos, ardores por cumprir
A luz do horizonte, corte sombrio
Sou Cerberus, guardião de um fraco destino
Almas despojadas do seu brilho
Heróis do mundo, servos do demónio
O seu sangue é apenas um rio de cadáveres trocidados
Deuses cortantes de espíritos lacerados
O meu dia, ganhei-o ao descobrir qual é a tua luz
Ele assombra-me, sussura-me ao ouvido maravihas danadas
Aqueles que a usam, fantasmas rasgados
Lâminas de ardor e tortura
Tu que criaste a seita, não te importas com as almas maceradas
Escolheste o sofrimento como o caminho da salvação
Não fui eu que o decidi
Sou apenas a julgada de tais pensamentos
Tu és o injusto da tua justiça
Brotas-te o mal das tuas lágrimas para teu bel-prazer
Torturas almas já atormentadas
O teu belo sorriso assusta-me
Com o prazer dos rituais no monte sangrento
Ensinas ilusões de amor e humildade
As promessas de dor e sofrimento
És a cura da visão para os crentes
Tua flagelação vã e brutal
Saudações ao reino dos cânticos malditos
Tormento de massas mundiais, mortes vãs por ti
Sacrificantes ocos da tua religião
És o oposto do teu bem, o mal herético que julgas
Assasinos que saudam violência e horrores
Adoradores de morte e sangue, vampiros de deus
És o mal que condenas
Exército de luz negra, as lâminas em riste!
Tribunal de demónios, banco dos réus
Será que estou errada?
Não! Não pode ser verdade!
Fujo da tua opressão obscura
As sereias que cantam querem devorar-me, frágies Ulisses indefesos
Canções demoníacas, lâminas aguçadas
Boa nova de falsas esperanças
Angústia do meu leito de morte e extrema-unção
És o terno e falso Deus

sábado, 16 de Junho de 2007

De olhos fechados


Estou na cama a dormir
Enroladinho em mim próprio
Num eco bem distante, oiço lá do fundo passos
Sinto uma mão a passar na minha cabeça
Estico-me, espreguiço-me, bocejo
Ah, sabe tão bem as suaves carícias
Sou mimado e não me importo
Gosto da minha independência e, ainda assim, atenção de vez em quando
Sabe que nem salmãozito assado
Vamos falar de mim?
Sou fofo e extremamente charmoso
Autêntico Valentino de primórdios antigos
Ligeiramente orgulhoso, humilde e gentelman por excelência
Faço as delícias de senhoras e crianças
Bichinho social amoroso
Contudo, a má língua
Essa tagarelice malvada!
Afirmam que apenas durmo, como e mordo
Fineza como eu jamais faria tal coisa
Apenas de vez em quando, pura brincadeira
Orelhas bicudas, olhos aguçados
Natural curiosidade para tudo e nada
Como todo honrado felino detesto água, coisa absurda banhos!
A minha língua bem que é mais eficaz e preferível
Trato de mim constantemente, asseado e brilhante
Qual pêlo eriçado?!
Bom, isso apenas se apanhar um susto
Continuando a falar de minha gateza
Adoro banhos de sol e luz artificial
Buracos confortáveis são lugares de preferência
Arroz doce e cherne estufado, manjares do céu
Bolas e bolinhas, fios e lãs, roupa e peluches
Iguarias maravilhosas
E, não poderia falta, um conselho de minha importante personalidade
Para atenção acrescida, não esquecer de pisar os coentros do protector
Cá entre nós, não acredito em donos como os demais
A honra da minha presença já é mais que suficiente
Traquinices que derretem corações
Meiguices que não ocupam tempo
Sou um amigo para todas as ocasiões
Felino de guarda de solitárias noites
Sim, sou eu, fiel gato para todas as horas
Não esse gato de botas, coisa desconfortável
Orelhas e olhos curiosos
Pêlo asseado de que modos eriçado
Sou um senhor de bigodes galantes
Vou ficar para ver, enroscadinho a dormir, que a espera é longa
Não gosto de chá, mas leite serve
Vou ficar por aqui, enroscadinho a dormir, que gosto de falar contigo
Pelo menos, a fingir que durmo

sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Barqueiro do Rio


O que é a morte,para além do meu fim?
Morte física, morte psicológica?
Será o paraíso?
O fim da jornada do conhecimento que é nada saber
Será o paraíso?
Jorros de mel, rios de melaço
Doce vida, triste canção
Sou a concentração da matéria do universo
A morte é o meu fim
Será?
Momento longíquo à minha porta
Que é feito da minha essência?
Já há muito que partiu, muitos dirão
Partiu mesmo?
Sou o ser que sou à procura de significado
Procuro a morte, procuro a vida
Procuro, vasculho, encontro...
O conhecimento obscuro da luz infinita
Barqueiro, barco, moeda
O limbo dos meus sonhos
Inferno do meu coração, paraíso de ilusão
Heróis e lendas de pouco me servem
São fantasmas que se agarram à barca
Confusão desse pastor do rio
Observar, olhar,
Ver com olhos de quem olha
Sou a amante da vida, mulher da morte
Procuro o fim, obtenho divagação
Palavras árduas
Atentai que sois vós que se chocam a si próprios
Vocês e os demais
Com medo da própria morte que causam ao vosso espiríto
Estrela guia do meu ar, Caciopeia fingida
Mentiras, mentirosos
Atentai que sois vós que se chocam a si próprios
Verdade da mentira
Olhai e petrificai... Amén
Religião oca, ensinamentos ensaguentados
Violência da vida, paz da morte
A morte é realmente a morte?
Questões, respostas, interpretações...
Amor ao mar, demónios de naufrágios
És o tronco da arvóre que tudo observa
Não vês?
Abre os olhos e vê
Paraíso obscuro, sangrento
Inferno brilhante, apaziguador
Sou a alma torturada de uma vida sem respostas
O meu cárcere sou eu
Palavras ocas que nada significam
Mentiras, mentirosos
A peste, essa encontra-se no nosso coração
Almas corrompidas por falsas esperanças
Falsas ilusões realistas
O caranguejo tem pinças, tu tens o quê?
A morte e vida, mentiras e mentirosos
O mar contém em si a sua imensidão, em ti que conténs?
Enganaram-nos!
Na verdade, (será essa a verdade?)
As mentiras foste tu que as contaste
Os mentirosos foste tu que os criaste
Canção arruinada, vivacidade mortal
A tinta que manchou o meu vestido, a estrela que morreu
Morreu?
Sou a mulher da morte, a amante da vida
O meu filho é a ilusão de que um dia a minha prece seja atendida

quinta-feira, 14 de Junho de 2007

Mar de Sargaço


A ambiguidade
Essa inteligência e ignorância que nos define
A astúcia que nos caracteriza como capacidade superior
Somos, acima de tudo, um deslize de um luar à meia-noite, ainda assim, aclamados de desejados
Somos, pensamos, sonhamos, desejamos...
Uma infinidade de coisas e coisa alguma
Somos, sim, acima de tudo, um nada assombrador
Confusão, alheamento
Perdidos no mais puro amâgo da ilusão
Somos, o que decidimos ser dentro da realidade dos nossos sonhos
Estamos já descritos na metáfora que é mundo
Somos, pedaços de nós mesmos e de outros demais
Seremos?
Um fruto que apodrece em contínua dor e angústia
A decomposição perante a alegria que é desaparecer
Somos um fluxo de palavras que escorrem da nossa mente
Um breve e suave rio
Tempestuoso, torrencial
Assombrando-nos com cada frase pronunciada
Será tudo um sonho?
Somos criadores e a criação de nós próprios
Razões de ausência da mesma
Irracionais por demais, ignorantes da própria dor
Somos a revolução da própria ausência sem significado
Uma revolução sem nome, heróis sem alusão
Perdidos, é o que realmente somos, o erro proveniente de nós mesmos
Puro castigo da injustiça
Essa injustiça de vir ao mundo e viver
De possuírmos em nós o azar ou fortuna de alçancar a felicidade e demais
Será que é necessário ser?
O contínuo jorrar de uma angústia sem fim
Se chorar baixinho, ouvirá alguém os gritos da minha alma?
As palavras, doces e malévolas
Somos quem somos
Somos assim o nada
Aversão de nós próprios
Alergia à nossa pessoa
A imensidão do nosso cérebro será?
Algo pequeno, diminuto,o momento eterno que é a nossa vida
Ah, sim...
Somos o infinito poder de coisa nenhuma
Somos a vasta complexidade do nada
Somos...Coisa alguma para além de nós próprios
Seres intragáveis, completamente amáveis no seu núcleo